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Homilia · Domingos

Sim, Senhor. Mas não foi.

Todos nós já dissemos "sim, Senhor" a Deus. A parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32) pergunta quantos desses sins chegaram de fato à vinha. Uma reflexão sobre a fé que fica na promessa e a conversão que ainda é possível, para quem disse não e para quem sempre disse sim.

26 de setembro de 2026 4 min de leitura

Há uma frase neste Evangelho que deveria nos tirar o sono. Não é a dos publicanos e prostitutas. É outra, bem mais curta, dita por um filho educado: "Sim, senhor, eu vou." E o texto acrescenta, sem comentário nenhum: "Mas não foi."

Só isso. Três palavras. Mas não foi.
Jesus conta essa história para os sacerdotes e os anciãos do povo. Gente de templo, gente de oração, gente que sabia os salmos de cor. Gente muito parecida com você e comigo. Porque nós também somos o povo do "sim". Na missa dizemos "amém" muitas vezes. Amém ao Credo, amém à oração, amém ao Corpo de Cristo. E a pergunta que o Evangelho deixa diante de nós é simples e terrível: quantos dos nossos améns chegaram à vinha?

Eu começo por mim. Quantas vezes disse "sim, Senhor" no altar e depois não fui visitar quem estava doente. Quantas vezes rezei pela paz e não procurei a pessoa com quem estava brigado. O filho do "sim" não é um hipócrita de novela. Provavelmente foi sincero na hora. Queria ir. Só que o dia passou, apareceram outras coisas, e a vinha ficou lá, esperando.

Santo Agostinho conta nas suas Confissões que, antes da conversão, rezava assim: "Senhor, dá-me a castidade, mas não agora." Ele diz que tinha medo de ser atendido depressa demais. Esse é o segundo filho. Um sim que empurra a vida para amanhã. E amanhã é o lugar onde a gente guarda tudo aquilo que não quer fazer hoje.

Agora olhe o primeiro filho. Ele é mal-educado. Responde ao pai na cara: "Não quero." Ninguém gostaria de ter um filho assim à mesa. Mas depois, diz o texto, ele mudou de ideia e foi. Alguma coisa aconteceu dentro dele. Talvez tenha visto o pai sozinho na vinha. Talvez tenha sentido vergonha. O Evangelho não explica. Só diz que ele foi.

E é aqui que Jesus faz a comparação que escandalizou aquela gente toda. Os publicanos e as prostitutas vão entrar antes de vocês. Por quê? Porque eles disseram "não" a Deus com a própria vida, sim, mas quando João Batista passou, deixaram-se ferir. Choraram. Mudaram de caminho. Os religiosos, não. Viram os pecadores se convertendo e continuaram iguaizinhos. Nem a conversão dos outros os converteu.

Isso me assusta. Porque é possível passar a vida inteira dentro da igreja e nunca se converter. É possível conhecer todas as regras e não conhecer o coração do Pai. O profeta Ezequiel lembra que o justo pode se desviar e o pecador pode voltar. Ninguém está garantido pelo seu passado. Nem o passado bom nos salva, nem o passado ruim nos condena. O que conta é para onde os nossos pés estão indo agora.
São Paulo, na carta aos Filipenses, mostra o contrário do segundo filho. Jesus não disse um sim de boca. Ele se esvaziou. Desceu. Assumiu a condição de escravo, obedeceu até a morte, e morte de cruz. O sim de Jesus custou o corpo inteiro. Não ficou na promessa. Foi até o fim da vinha, até o Calvário.

Talvez você esteja do lado do primeiro filho. Passou anos dizendo não. Fugiu de Deus, fez coisas de que se envergonha, acha que é tarde. Para você esta palavra é de uma ternura enorme: ainda dá para ir. O Pai não pergunta o que você respondeu ontem. Ele só espera ver você chegando à vinha.

Mas talvez você esteja do outro lado. É dos do sim. Dos de sempre. Dos que nunca faltam. E para você a palavra é outra: cuidado para que o seu sim não tenha virado costume. Cuidado para não achar que estar perto do altar é o mesmo que estar dentro da vontade do Pai. Pode ser que a mulher que você julga, o homem de quem você fala mal, o jovem que você acha perdido, esteja caminhando para a vinha enquanto você continua na porta de casa dizendo "eu vou".

Daqui a pouco você vai fechar esta página. E do lado de fora da tela está a vinha. Está o vizinho, a mãe idosa, o filho com quem você não conversa, o perdão que está adiando há anos.
Então eu deixo uma pergunta para você não soltar tão cedo:

Qual é o "sim, Senhor" que você disse a Deus há muito tempo e até hoje não foi cumprir?

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