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Homilia · Domingos

Setenta vezes sete

Pedro achou que era generoso ao propor sete vezes. Jesus responde com o número da vingança de Lamec (cf Gn 4, 24) e o vira do avesso. Uma homilia sobre a dívida impagável que já nos foi perdoada.

13 de setembro de 2026 4 min de leitura

Pedro achou que estava sendo generoso. Os rabinos de seu tempo ensinavam que se devia perdoar três vezes. Ele dobrou a conta, ainda acrescentou uma, e chegou a sete. Esperava um elogio. Recebeu outra coisa: "não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete".

Quem conhecia as Escrituras sentiu o chão mexer. No começo do livro do Gênesis, um homem chamado Lamec canta diante de suas mulheres a primeira canção de vingança da humanidade: "Caim será vingado sete vezes, mas Lamec setenta vezes sete" (Gn 4,24). Jesus toma exatamente esse número, o número do ódio que não sabe parar, e o vira do avesso. No lugar da vingança sem fim, Ele coloca um perdão sem fim. Ali acaba a contabilidade.

Então vem a parábola, e ela é toda feita de números. O primeiro empregado deve dez mil talentos. Um talento valia seis mil denários, e o denário era o salário de um dia. Faça a conta devagar: sessenta milhões de dias de trabalho, cerca de duzentos mil anos. É uma dívida deliberadamente absurda, impagável, quase cômica. E mesmo assim o homem se ajoelha e promete: "dá-me um prazo e eu te pagarei tudo". Repare que ele não pede perdão. Pede tempo. Ainda acha que dá conta sozinho.

O patrão não lhe concede o prazo. Concede aquilo que ele não teve coragem de pedir, e perdoa tudo.
Aí o homem sai e encontra um companheiro que lhe deve cem denários. Cem dias de trabalho. Não é pouco, veja bem. É uma dívida real, três meses de salário. A ofensa que sofremos quase nunca é imaginária. Mas diante do que ele acabou de receber, aquilo é uma gota diante do mar. E ele agarra, sufoca, manda prender.

O que o patrão lhe diz no fim não tem tom de sentença jurídica. Tem tom de pergunta ferida: "Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?" Aqui está a dobradiça do Evangelho inteiro. O perdão que damos não é o preço do perdão que recebemos, é o seu transbordamento. Quem recebeu de verdade, derrama. Quem não derrama dá sinal de que ainda não recebeu, e continua acreditando que pagou a própria conta.

Deixem-me contar uma história. Em 1902, uma menina de onze anos chamada Maria Goretti foi assassinada com catorze golpes por um rapaz da casa vizinha, Alessandro Serenelli. Antes de morrer, ela disse que o perdoava e que queria tê-lo consigo no Paraíso. Alessandro passou vinte e sete anos na prisão, endurecido, sem arrependimento, até sonhar com a menina lhe oferecendo lírios. Quando saiu, foi até a cidade onde vivia Assunta, a mãe de Maria, na véspera de Natal, e pediu perdão àquela mulher cuja filha ele havia matado. Ela respondeu que, se Maria o havia perdoado, e se Deus o havia perdoado, ela não poderia fazer diferente. Naquela noite os dois entraram juntos na Missa do Galo e comungaram lado a lado, a mãe da vítima e o assassino, no mesmo banco. Anos depois ele estava na praça, em Roma, no dia em que Maria foi canonizada.

Ninguém aqui vai dizer que aquilo foi fácil, nem rápido, nem barato. Foram vinte e sete anos. Perdoar não significa fingir que não doeu, nem dizer que estava tudo bem, nem voltar a colocar a mão no fogo. Significa recusar que o mal sofrido tenha a última palavra sobre quem eu sou.

Por isso o final da parábola é tão duro, com os torturadores e a prisão. Não é Deus mudando de ideia sobre a misericórdia. É a constatação de que o coração fechado já está na cadeia que ele mesmo construiu. Todos nós conhecemos alguém que carrega há vinte anos uma mágoa de família, uma herança mal dividida, uma palavra dita num velório. Não é o outro que está preso. É ele.

Jesus termina com uma expressão que não dá para contornar: "se cada um não perdoar de coração ao seu irmão". Não basta o gesto de fachada, o cumprimento seco na porta da igreja, o "já passou" dito com os dentes cerrados. É do coração. E o coração ninguém muda por decisão, o coração a gente pede. Antes de ser um ato, o perdão é uma oração: "Senhor, eu ainda não consigo, mas eu quero querer".

Hoje, ao se aproximar da comunhão, cada um de nós vai receber de graça uma dívida de duzentos mil anos perdoada.

E aquele nome, aquele rosto que apareceu na sua cabeça enquanto eu falava, porque apareceu algum, você vai continuar cobrando os cem denários dele até quando?

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