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Homilia · Domingos

O convite que continua de pé

Na parábola do banquete de casamento (Mt 22,1-14), os convidados não recusam a festa por maldade, mas por pressa: um vai para o campo, outro para os negócios. Como Santo Agostinho, que por anos respondeu a Deus com um "amanhã" que nunca chegava, também nós adiamos o convite. Esta homilia nos lembra que a mesa continua posta e que o traje de festa é deixar o amor de Deus nos vestir por dentro.

10 de outubro de 2026 4 min de leitura

28º Domingo do Tempo Comum, Ano A (Mt 22,1-14)

Há convites que a gente recebe e guarda na porta da geladeira. Um casamento, um batizado, os oitenta anos de uma avó. O papel fica ali, preso no ímã, lembrando todos os dias que alguém pensou em nós e reservou um lugar à mesa. Jesus hoje nos conta a história de um convite assim. Um rei prepara a festa de casamento do filho, manda chamar os convidados, e eles simplesmente não vêm.

O que mais me chama a atenção nesta parábola não são os que maltratam os empregados. São os outros. Aqueles que, diz o Evangelho, não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios. Ninguém ali está fazendo nada de errado. Cuidar da terra e do trabalho é coisa honesta. O problema é outro. É a vida tão cheia de coisas que não sobra espaço para a alegria que Deus oferece. Não recusaram a festa com raiva. Recusaram com pressa.

E isso fala de nós. Quantas vezes o convite de Deus chega e respondemos com um "agora não". Depois da reforma da casa. Quando os filhos crescerem. Quando a vida acalmar. A gente não fecha a porta para Deus, apenas vai deixando para depois.

Santo Agostinho conheceu bem essa demora. Durante anos ele sentiu Deus chamando, admirava os cristãos, ouvia as pregações de Santo Ambrósio em Milão, chorava com a fé da mãe, Mônica. Mas adiava. Ele mesmo conta nas Confissões que respondia a Deus com um "amanhã, amanhã" que nunca chegava. Até que um dia, sentado num jardim, aflito, ouviu uma voz de criança cantando "toma e lê". Abriu as cartas de São Paulo e os olhos caíram sobre uma frase: "Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo". Naquele instante, escreve ele, toda a sombra de dúvida se dissipou.

Repare que palavra encontrou Agostinho: revesti-vos. É exatamente o centro do final da parábola. A sala está cheia, maus e bons foram chamados nas encruzilhadas, ninguém ficou de fora por não merecer. Mas um homem entra sem o traje de festa. O rei não o expulsa porque era pobre ou porque tinha um passado ruim. Todos ali foram recolhidos pelos caminhos. O problema é que ele entrou na festa sem deixar a festa entrar nele. Sentou-se à mesa como quem ocupa uma cadeira, sem nenhuma mudança no coração.

O traje de festa é isso: deixar que o amor de Deus nos vista por dentro. É a misericórdia que aprendemos a oferecer porque a recebemos primeiro. É o perdão que finalmente damos. É a paciência com quem mora conosco. Ninguém compra esse traje. Ele é presente do Rei, mas precisamos aceitar vesti-lo.

Isaías, na primeira leitura, fala de um banquete no monte, com vinhos finos e carnes saborosas, e de um Deus que enxuga as lágrimas de todos os rostos. O salmo canta a mesa preparada diante de nós e o cálice transbordando. E São Paulo, preso, escreve aos filipenses que aprendeu a viver na fartura e na necessidade, porque tudo pode naquele que o fortalece. A festa de Deus não espera a vida ficar perfeita. Ela acontece no meio da vida real, com nossas dificuldades, como diz Paulo, e com a certeza de que o Senhor proverá tudo o que nos falta.

Nesta Eucaristia, o convite chega outra vez. A mesa está posta. Amanhã celebramos Nossa Senhora Aparecida, a Mãe que em Caná percebeu que faltava vinho na festa e não deixou a alegria acabar. Que ela nos ajude a não chegar de mãos vazias e coração fechado.

Fica para esta semana uma pergunta simples, para levar no caminho: qual é o "campo" ou o "negócio" que tem me feito adiar a resposta ao convite de Deus, e o que eu preciso vestir para entrar de verdade na festa?

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