Homilia · Domingos
Deus atravessa a praça
Na parábola dos trabalhadores da vinha, o patrão sai cinco vezes ao mesmo lugar. Não porque a vinha precise de braços, mas porque ele não suporta ver gente parada, achando que não serve para nada. Neste mês de Setembro Amarelo, essa imagem nos alcança de perto: há muita gente parada na praça por dentro, esperando que alguém a chame pelo nome. Uma reflexão sobre o Deus que vem ao nosso encontro, sobre a coragem de se deixar encontrar e sobre a tarefa de atravessar a praça em direção a quem ficou.

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25º Domingo do Tempo Comum
Há uma frase no Evangelho de hoje que talvez seja a mais triste de toda a parábola, e ela passa quase despercebida. Quando o patrão chega à praça às cinco da tarde e pergunta por que aqueles homens estão ali parados o dia inteiro, eles respondem: "porque ninguém nos contratou". Ninguém nos quis. Ninguém precisou de nós. Ficar na praça até o fim do dia é ter ouvido muitos "não" desde a madrugada.
Reparemos no que o patrão faz. Ele sai cinco vezes. De madrugada, às nove, ao meio-dia, às três, às cinco da tarde. Quem entende de vinha sabe que uma hora de trabalho não salva colheita nenhuma. Aquele homem não vai à praça porque a vinha precisa de braços. Ele vai porque não suporta ver gente parada, encostada na parede, achando que não serve para nada. A parábola fala menos sobre trabalho e muito mais sobre a inquietação de Deus, que sai de casa cinco vezes no mesmo dia atrás de quem ficou para trás.
Neste mês de setembro, a Igreja e a sociedade nos convidam a olhar com mais atenção para essa praça. O Setembro Amarelo existe porque há muita gente parada ali, por dentro. Gente que acorda com o peso de achar que é um estorvo, que só dá trabalho, que a vida seria mais leve para os outros sem ela. Gente que sorri na porta da igreja e chora no carro. E o que o Evangelho nos diz hoje é que Deus atravessa a praça. Ele não espera o cansado chegar até a vinha. Ele vai, chama pelo nome e diz: "ide vós também".
Isaías completa: "buscai o Senhor enquanto pode ser achado, invocai-o enquanto ele está perto". E o salmo que cantamos é quase um abraço: "o Senhor está perto da pessoa que o invoca". Deus vem ao nosso encontro, mas ele não arromba porta. Ele espera que a gente deixe ser encontrado. Deixar-se encontrar é uma decisão pequena e corajosa. É dizer a alguém que não se está bem. É pedir ajuda, procurar um médico, procurar um irmão, procurar o confessionário, procurar quem escuta. Quem faz isso não está sendo fraco na fé. Está fazendo exatamente o que o salmo pede, está invocando.
Madre Teresa de Calcutá viveu quase cinquenta anos sentindo, por dentro, um silêncio enorme. Nas cartas publicadas depois de sua morte, ela confessa ao diretor espiritual que rezava sem sentir nada, que o céu parecia fechado. Ela não largou o trabalho por causa disso. Continuou levantando gente da calçada, continuou sorrindo, continuou indo. A fé dela não dependia do que ela sentia. E hoje sabemos que aquela mulher, que parecia a mais luminosa de todas, carregava um peso que quase ninguém suspeitava. Isso deveria nos curar da mania de achar que sabemos quem está bem só de olhar.
São Paulo escreve a carta de hoje da prisão, já perto do fim. Ele diz com toda a sinceridade que se sente atraído para os dois lados, que tem vontade de partir e estar com Cristo. E então decide ficar, com uma razão simples e desarmante: "para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo". Alguém ainda precisa de mim. Alguém ainda espera a minha voz, o meu abraço, a minha presença na mesa. Essa frase de um homem acorrentado vale como remédio para muita gente que hoje acha que já não faz falta.
E aí entendemos a moeda de prata. Ela é a mesma para todos porque ela não é salário, é presente. Deus não se reparte em pedaços proporcionais ao nosso desempenho. Ele se dá inteiro ao que carregou o dia todo e inteiro ao que chegou às cinco da tarde arrasado, depois de anos afastado, depois de recaídas, depois de coisas que ele tem vergonha de contar. É por isso que o patrão pergunta ao que resmunga: "estás com inveja porque eu estou sendo bom?" Deus é mais generoso do que a nossa contabilidade suporta, e graças a Deus é assim.
Saiamos daqui com duas tarefas. A primeira é nos deixar encontrar, invocar mesmo sem sentir, aceitar a diária que não merecemos. A segunda é ser gente que atravessa a praça. Perguntar de verdade como o outro está e ficar para ouvir a resposta. Ligar para aquele parente calado. Sentar ao lado de quem ninguém contratou.
Fica a pergunta para levarmos para casa: quem é a pessoa que está parada na minha praça, esperando que alguém a chame pelo nome, e o que me impede de ir até ela esta semana?
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