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Homilia · Domingos

A imagem que carregamos

A moeda trazia o rosto de César. Nós trazemos o rosto de Deus. Uma reflexão sobre o Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum para nos perguntar, ao longo da semana, a quem realmente pertence a nossa vida.

17 de outubro de 2026 4 min de leitura

29º Domingo do Tempo Comum, Ano A (Is 45,1.4-6; Sl 95; 1Ts 1,1-5b; Mt 22,15-21)

Irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo começa com uma armadilha. Os fariseus se juntam aos partidários de Herodes, gente que normalmente não se sentava à mesma mesa, e vão até Jesus com elogios na boca: "Mestre, sabemos que és verdadeiro". Quando a conversa começa com tanta lisonja, quase sempre vem algo escondido logo atrás. E veio: "É lícito ou não pagar imposto a César?"

Se Jesus dissesse sim, seria visto como amigo do opressor romano. Se dissesse não, seria denunciado como rebelde. Qualquer resposta parecia um laço no pescoço.

Jesus pede uma moeda. E aqui há um detalhe que gosto muito. Ele não tinha a moeda. Eles tinham. Estavam ali, perto do Templo, com o dinheiro de César no bolso. A moeda daquele tempo trazia o rosto do imperador Tibério e uma inscrição que o chamava de filho do divino Augusto. Era pequena, mas dizia muito: quem manda aqui, quem é tratado como deus aqui.

"De quem é esta imagem?", pergunta Jesus. "De César." Então vem a frase que atravessou os séculos: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus."

Muitos leem essa frase como uma divisão de territórios. Um pouco para o governo, um pouco para Deus, cada um no seu canto. Mas os antigos Padres da Igreja perceberam algo mais bonito. Se a moeda pertence a César porque traz a imagem de César, a quem pertence aquilo que traz a imagem de Deus? E logo nas primeiras páginas da Bíblia está escrito que Deus criou o ser humano à sua imagem.

A moeda tem o rosto de César. Você tem o rosto de Deus.

Então a resposta de Jesus não é uma saída esperta. É um chamado. Pague seus impostos, cumpra seus deveres, seja um bom cidadão. Isso é justo. Mas não entregue a ninguém aquilo que só pertence a Deus: sua consciência, seu coração, sua vida inteira.

Lembro sempre de São Tomás Morus. Era chanceler da Inglaterra, o homem mais importante do reino depois do rei. Serviu Henrique VIII com lealdade por anos. Mas quando o rei exigiu que ele jurasse algo contra a própria consciência e contra a Igreja, Tomás disse não. Perdeu o cargo, perdeu os bens, foi preso na Torre de Londres. No dia da execução, em 1535, a escada do cadafalso estava bamba, e ele, com o bom humor que nunca perdeu, pediu ao guarda: "Me ajude a subir. Para descer, eu me viro sozinho." E diante do povo disse que morria como bom servo do rei, mas servo de Deus em primeiro lugar.

Bom servo do rei. Mas de Deus primeiro. Isso é dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

A primeira leitura nos lembra que Deus continua sendo o Senhor da história, mesmo quando ela parece estar nas mãos dos poderosos. Ciro era um rei pagão, que nem conhecia o Deus de Israel, e ainda assim Deus diz: "Eu te cingi, embora não me conhecesses". Os Césares passam. As moedas mudam de rosto. Deus permanece.

E São Paulo, escrevendo aos tessalonicenses, mostra como se vive isso no dia a dia: uma fé que trabalha, um amor que se esforça, uma esperança que não desiste. Não são palavras bonitas. São mãos ocupadas, joelhos dobrados, olhos que continuam olhando para frente.

Hoje a Igreja celebra também o Dia Mundial das Missões. E talvez seja esta a ligação mais simples com o Evangelho. Ser missionário é deixar que a imagem de Deus apareça em nós. Como a moeda passava de mão em mão e levava o rosto de César por todo o império, nós somos chamados a passar pela vida das pessoas levando o rosto de Deus. No trabalho, na família, no trânsito, na fila do posto de saúde. Ninguém precisa ir longe para isso. Basta não esconder de quem somos.

Ao longo desta semana, deixo uma pergunta para você levar no bolso, como quem carrega uma moeda:

Quem está ocupando o lugar que só pertence a Deus na minha vida, e o que eu preciso devolver a Ele?

Amém.

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